sexta-feira, 15 de junho de 2012

TINNINHA - Assim começa a história


Tudo começou numa manhã de março, por volta das 6:00 da manhã. Lá ia eu, apressada para o ponto de ônibus, mas meus olhos tiveram a curiosidade de perceber uma ninhada de gatinhos do lado de fora do portão de uma casa, em frente à qual eu passava há 11 anos, sem nunca ter reparado por ali nada que me chamasse a atenção. Porém, desta vez, eis que a movimentação alegre dos bichanos encheu de graça minha manhã. Pensei comigo se eles não estariam fugindo, por descuido de algum morador que tenha saído da casa e deixado o portão aberto. Eram vários gatinhos e pareciam estar se regozijando com a liberdade de ver a rua e seus passantes apressados em direção ao trabalho. Cogitei chamar na casa, mas desisti, visto meu tempo estar curto e "perder" o ônibus não seria nada bom. Continuei meu caminho com a imagem dos bichinhos na retina. Trabalhei e retornei para a cidade. Minha volta para casa era sempre por outra rua e, praticamente, esqueci-me dos gatinhos.
Mas,  no dia seguinte, mesmo horário, mesmo itinerário, eis que meus olhos curiosamente buscam  a calçada da casa onde vi os bichinhos. Desta vez não vi nenhum dos filhotes a fazer as levadezas do dia anterior, mas havia uma novidade naquele portão: "ADOTE UM GATINHO". Já estava clara minha decisão enquanto perfazia o restante do percurso: sim, teríamos pela primeira vez um gatinho. Vislumbrei a alegria, a euforia das minhas meninas, uma, na época, com 7,  outra com 10.
Decidi que esperaria até o final de semana, mais precisamente o sábado em que estaríamos as 3 em casa e sem antecipar nada, levei-as à "casa dos gatinhos". Perguntei por eles e a dona da casa me respondeu que sobrara apenas um: "aquele ali". Embora já soubesse a resposta, perguntei às minhas filhotas se gostariam de ter aquele gatinho, se cuidariam dele direitinho e tal. A Resposta foi efusiva, com aquele brilho nos olhos que a gente sabe que nunca vai esquecer.
Saímos com o bichinho no colo e fomos imediatamente à mercearia, mas lá não havia ração para gatos. A primeira coisa que descobri como futura dona de um bichano é que não se pode entrar em lugares de comércio com o animalzinho. O filho do dono não se fez de rogado e passou uma reprimenda na minha filhinha menor, dizendo a ela que levasse o gato para fora do estabelecimento,  pois do contrário iria encher o local de pelo. É claro que fiquei muito brava, pois ele deveria solicitar a mim que tomasse tal atitude e não à criança. 10 minutos de adoção, e  eu já comprava briga  pelo bichinho; começávamos bem.
Relembrando um pouco minha relação com tais bichos, convém mencionar que meu pai odiava gatos e eu, por extensão, acabei nutrindo pelos bichanos  um certo quê de desconfiança, sem muita aproximação. Mas, agora, meu pai, que Deus o tenha, não se encontrava mais entre nós no plano físico, então sem problemas ter o gatinho. 
Passado o ocorrido na mercearia,  gastamos o resto do sábado ensaiando nomes para ela, já que viramos o animalzinho de patas para cima e não havia órgão sexual masculino, então era ela e ganhou  nome feminino, delicado, melódico. Bastava chamar: Tiinninhaaaaaa (pronuncia-se Tiniiinhaaaa) e ela já vinha toda se enroscando nas pernas da gente, miando manhosa, querendo colo ou comida. 
Foram brigas intermináveis entre mim e as minhas duas mocinhas para que não levassem a Tinninha para a cama. Fui alertada por um irmão que "esse bicho dá cria uma após a outra, vocês vão ver". Com isso, a donzelice da TInninha tornou-se nosso maior cuidado. Provavelmente, os vizinhos se irritaram muitas vezes quando, tarde da noite, estávamos as 3 (porque eu entrei nessa também)... pois bem, ficávamos as 3 a chamar pelo quintal, debaixo dos muros, quando a gatinha se aventurava por outros territórios: Tinninhaaa! Tinninha! 
Muito bem cuidada e alimentada, ela sempre dormiu em lugar especial, preparado só para ela, com sua comidinha, água, a caixa de areia e a almofada. Chegou a tomar banho perfumado e ter laço no pescoço, ao que eu, vendo o esforço do bicho para se desvencilhar do apetrecho, obriguei as meninas a retirarem sob ameaça de devolver a gata para a antiga dona.
E naqueles 3 meses que se passaram, a Tinninha nos fez sorrir com seus olhinhos quase se fechando quando miava, parecendo querer falar, suas posições esquisitas ao dormir, a briga que travou com uma abelha e acabou levando a pior, as unhadas que, de vez em quando, dava no cachorro Quim Zé, quando este a provocava na briga por espaço.
Comecei, no entanto, a me preocupar quando  uma das minhas filhas, que estava sempre com Tinninha no colo,  apesar das minhas constantes advertências, veio me mostrar que havia algo estranho, um tipo de caroço perto dos órgãos genitais da Tinninha. Apalpei e não vi nada de mais e continuamos nossa vida, tudo normal, mas sempre a minha filha me falando desse tal caroço da Tinninha.
Pois bem... Dia passa, outro vem e a Tinninha continuava arteira, levada; agora começava a aparecer no telhado um gatão preto; vigilância redobrada sobre a donzela amarelinha.
Mas a verdade sempre aparece e, é  claro, que no reino dos gatos não poderia ser diferente: numa dessas observações sobre a alteração que estava ocorrendo no corpo do bichinho, veio o que não consegui, no exato momento,  conceituar se gostava ou não do fato, mas...TINNINHA ERA MACHO!!!! Carocinho, que nada!!! Tiinninha tinha  testículos!!!
Como dizem os autênticos mineiros: "Uai sô, que má nota!!!" 
Acho que as meninas ficaram meio tristes porque já haviam se acostumado com a ideia de ter uma gatinha para enfeitar, colocar saiote, laços, ter filhotinhos... Porém, o que me veio na cabeça na hora da inesperada revelação foi: qual o nome terá o gato? Como mudar o nome dele se já acostumou a que o chamemos de Tynninha? E agora? 
Começamos a testar chamá-lo de Thinnim, sem o "a" final;  na hora de comer agora falamos assim: Thinniiiiiiiiiiiimmmmmmmmm! Thin-nym-immmmmmmmmm! Está funcionando.
Caramba!!! Por que ninguém me avisou que só dá para ver melhor o sexo do bichinho depois de uns 2 ou 3 meses de nascido?!
Mas nosso amor não diminuiu  devido à confusão de gênero e Thinnim se tornava a cada dia mais lindo e arteiro. Não foram poucas as vezes em que desapareceu de casa, deixando-nos aflitas. Digo aflitas porque me refiro às meninas da casa: eu e minhas duas filhas, já que o homem da casa, meu filhotão não tinha muito jeito com  animais, apenas se limitando a resmungar de vez em quando: "que bicho esquisito...Olha como ele tá deitado, todo torto, cabeça para um lado, pernas pro outro". Enfim, o bichano sumia pelas redondezas atrás das gatas, chegando a sumir por mais de uma semana. Gato não dá para prender, vocês sabem; o bicho tem um relacionamento com a liberdade e com a autolimpeza invejáveis. E eis que um dia Thinnim nos aparece no quintal com sintomas estranhos, contorcendo-se de dor: eram claras as evidências de envenenamento, e não houve como salvá-lo.
Muito choro... amaldiçoamos a pessoa das redondezas que matou o nosso bichinho e prometi não adotar nunca mais outro animal, para não ver novamente minhas filhas sofrerem. 
Mas aí, chegou o Smilinguido, que também foi envenenado, novo choro, novas maldições, nova promessa.
Depois veio a Gigi, a Poppy, a Pretinha.  A Gigi morreu, mas não foi por envenenamento,e agora temos ainda duas donzelinhas para cuidar, com certeza de que são mesmo fêmeas.
Meu filho foi atacado pelo vírus "não posso ver bicho sem lar" e trouxe o Negão, cachorro bonito, dócil, que fugiu de casa, foi regatado por uma vizinha, que sem saber que era nosso, segundo ela,   doou-o para outra residência bem longe, de onde ele fugiu, indo atrás de uma cadela.  Aí veio o Lord, encontrado também por meu filho, numa caixa cheia de filhotinhos de cachorro; ele pegou um e levou os outros para um pet shop. Ele se chama Lord, mas não é lá muito  elegante: come meia, pé de rodo, pé de vassoura, chinelo, vasilhas plásticas de água e comida e adora a rua, como todo viralata.