terça-feira, 28 de dezembro de 2010

ESPERANÇA

E o ano termina...
Não adianta tentar fugir:  pesamos e medimos nossas perdas e conquistas para dizer se foi um bom ano. 
E, depois desta análise, parabenizamo-nos ou nos recriminamos e, alma lavada ou em busca de energia para recomeçar,  marcamos com os amigos e familiares aquela farra, muita comida, bebida, música e fogos. O ano que vem será melhor, será "pleno". Acho que esta é uma das palavras mais utilizadas nas mensagens: "que o  ano que virá seja pleno de realizações".

Esperança
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
Mário Quintana

FELIZ 2011!!!








quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

QUANDO A ALMA FALA

A mineira de Sete Lagoas, Janice França,  lançou neste ano seu  primeiro livro :"Quando a alma fala". Trata-se de  uma coletânea de poemas da autora, lançado na Bienal do Livro de São Paulo em 17/08/2010. Em Sete Lagoas, o lançamento aconteceu  na Casa da Cultura, no dia 04/11/2010, tendo o prestígio dos integrantes do Clube de Letras de Sete Lagoas e de várias pessoas da sociedade sete-lagoana.
Vale a pena conferir a obra da moça.
"(...)Não sei se realmente escrevo para que me entendam ou se é para 'falar do que não digo' para mim mesma. O fato é que escrever me faz um enorme bem, me proporciona um grande prazer.
Posso afirmar que sou o que expresso, no momento em que escrevo!"

Quando a Alma Fala
"Aqui exponho, em versos, um pouco de mim como mulher, pessoa, mãe, esposa, companheira, amante  e tantas outras facetas que adquirimos pela vida, principalmente depois dos trinta anos; conflitos vêm à tona assim como a necessidade de auto-conhecimento.
Viajar para dentro de mim fez surgir a maioria destes poemas. Que eles possam servir de reflexão a quem os leia."
Janice França




                                                    VOZES DO MUNDO
Salvador Dali, Subúrbios da Cidade
                               Cidades, ruas, becos, guetos,
Lugares onde nunca pisei...
Por eles viajo em pensamento.
O mundo, sem saber de minhas asas atadas,
Chama-me atraente e foliento.
Há tanto ainda para se conhecer, tantas estradas...
Inexorável desejo, cruel e amarulento.
Quero sol, lua, fulgor.
Sonho de Ícaro, asas de cera;
Olhos de poeta, coração sonhador!
Janice França

Manhã
Marc Chagall, The Poet with the Birds - 1911, Minneapolis Institute of Arts, Minnesota
 Linda e doce manhã...
Prenúncio de um lindo dia!
No palco azul celeste,
A estrela maior, o Sol.
Também como atores
Pássaros bailarinos e cantores.
Coadjuvante deste espetáculo,
Uma suave brisa
Com atuação marcante e refrescante.
Peça linda, manhã bonita...
Na platéia , eu e uma paz infinita!
Janice França


Nascida em 16/09/1963, Janice é professora geógrafa e pós-graduada em Metodologia do Ensino de Geografia.  
Quando a Alma fala é o primeiro livro que publica, apesar de não ser o primeiro que escreve e, segundo a própria autora, há negociações com editor português para futuro lançamento em Portugal.   
Em Sete Lagoas pode ser encontrado na Opte Livros. Outra opção é adquiri-lo através dos sites: http://24.233.183.33/cont/login/Index_Piloto.jsp?ID=bv24x7br 
Muito produtiva,  Janice está escrevendo mais  três livros, simultaneamente,  tendo um  pronto  para publicação, em prosa.  No aguardo ansioso de novidades, desejos de muito sucesso à escritora.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Um poeta nordestino...Oxente! Uai!

Estive lendo muita besteira nestes últimos dias e não preciso nem explicar que estou falando dos insultos, da xenofobia que o descontentamento frente ao resultado das eleições  se fez descortinar por parte de algumas pessoas. Sim, digo descortinou, porque o preconceito está implícito nas relações e escapa da concha da hipocrisia ante algum conflito, é sempre assim.  
Sem me aprofundar se candidato A ou B é melhor ou pior, o certo é que nunca vi tanta "abobrinha". E o que é  drástico: os insultos vêm de jovens, que, na minha modesta concepção,  deveriam ter uma mente mais aberta. Vêm também  de pessoas que têm um bom grau de formação acadêmica, mas que não alcançaram um nível de cultura que os faça entender a diversidade e que não conhecem a realidade cultural,  geográfica, econômica de estados e regiões que agora,  viraram alvos da onda ofensiva  do momento. Tudo porque, para compensar a frustração de uma derrota, aqueles que não sabem perder com classe apelam para a chiadeira grotesca e embirrada, juntando-se aí mais alguns que, independente de resultado de eleição, encontraram uma oportunidade para disseminar rancores e preconceitos. 
E Então eu me vejo relendo tantos versos, frases, recordando livros e histórias de vida de tantos artistas do norte e nordeste do Brasil, reconhecendo mais uma vez que, além da música, existe uma infinidade de criações, que muitos porém, teimam em não ver, em não valorizar.
Recordo o primeiro romance de ficção regionalista que li: O quinze, de Raquel de Queiroz, a cearense ilustre que faria 100 anos no dia 17 de novembro.
Minha primeira paixão poética, já contei aqui, foi o poema "Pardalzinho", do pernambucano Manuel Bandeira, hoje um dos meus poetas preferidos.Vejo-me repetindo os primeiros versos do poema do também pernambucano  João Cabral de Melo Neto - Tecendo a Manhã: "Um galo sozinho não tece uma manhã; ele precisará sempre de outros galos", depois me emocionando com os vários "severinos" do Morte e Vida Severina. Minha lista se estende na literatura sensual de Gabriela, do baiano Jorge Amado, na vida sofrida dos seus meninos "Capitães da areia" e tantas outras obras. Poderia ainda falar de outros baianos ilustres: Castro Alves e Rui Barbosa  e voltar ao Pernambuco no ritmo gostoso do baião do Luiz Gonzaga. Daria um "pulinho" lá no norte, conhecendo através de "O missionário" de Inglês de Souza, um pouquinho mais do Pará. Em seguida refletiria com os versos do amazonense Thiago de Melo sobre "Os estatutos do homem". E não dá para pensar na região do Amazonas sem ouvir do compartimento de boas lembranças da memória o compositor e cantor manauara Vinícius Cantuária, esbajando charme e talento na interpretação da música "Só você". E minha imaginação voltaria para Minas, onde vislumbro o rosto da minha amiga  Silvia, mulher forte, paraense de fibra e de inteligência acima da média, professora dedicada à educação mineira.
Se eu fosse relatar sobre todos os escritores e outros artistas do norte e nordeste que influenciaram  meu gosto literário ou tiveram importância em momentos marcantes da minha vida, o leitor do blog ficaria horas e horas se deliciando com o que tenho para repartir.
Gente, o Brasil é riquíssimo! Quanta cultura, quanta coisa diferente para se aprender, lugares novos e lindos para se conhecer, amizades para se conquistar. Creio que as pessoas que se portam  com esse seletismo preconceituoso se privam de muitas dessas coisas de que falei.
Mas, como gosto de apresentar poetas que não são muito conhecidos aqui nas Minas Gerais,  cujas obras me chegaram aos olhos ou ouvidos com um pouco de história pessoal, apresento, a quem não conhece, Otacílio Batista, um poeta nordestino arretado. Antes, preciso voltar no tempo, mais uma vez. 
Ainda bem jovem me tornei fã da Elba, do Zé Ramalho, da Amelinha e foi na voz desta que ouvi pela primeira vez a música "Mulher nova, bonita e carinhosa". Como se diz por aqui, achei o "trem" mais bonito do mundo. Apaixonada por música, fascinada pela história da Grécia,  cantarolava dia e noite a canção, mesmo com as muitas repreensões da minha mãe, que julgava por demais obsceno o refrão que dizia que "mulher nova, bonita e carinhosa faz um homem gemer sem sentir dor". Eu acreditava que a música era do Zé Ramalho e somente muito tempo depois fui descobrir que os versos de Otacílio foram musicados pelo Zé, dando origem à canção “Mulher Nova Bonita e Carinhosa”, gravada inicialmente pela cantora Amelinha e depois pelo próprio Zé Ramalho. A canção foi tema de um filme brasileiro sobre Lampião, o Rei do Cangaço e , no texto que posto abaixo, há uma estrofe final que não há na música.

Um pouco sobre a vida e obra de Otacílio Batista
Poeta repentista, o mais novo dos três famosos irmãos Batista (Otacílio, Dimas, e Louro do Pajeú, O Lourival Batista).
Otacílio Batista Patriota nasceu no dia 26 de setembro de 1923, na Vila Umburanas, São José do Egito, sertão pernambucano do Alto Pajeú.
Filho de Raimundo Joaquim Patriota e Severina Guedes Patriota, ambos paraibanos, Otacílio participou pela primeira vez de uma cantoria em 1940, durante uma Festa de Reis em sua cidade natal. Daquele dia em diante, nunca mais abandonaria a vida de poeta popular.
Em mais de meio século de repentes, participou de cantorias com celebridades como o Cego Aderaldo e outros. Conquistou vários festivais de cantadores realizados nos estado de Pernambuco, Ceará, Rio de Janeiro e São Paulo.
Entre os folhetos de Cordel que Otacílio publicou estão os seguintes: A Morte do Ex-Governador Dix-Sept Rosado; Versos a Câmara Cascudo; Peleja de Zé Limeira com Zé Mandioca; Peleja do Imperador Pedro II com o Rei Pelé. Todos consagrados junto aos leitores nordestinos.
Otacílio Batista publicou, ainda, vários livros. Entre os quais, destacam-se: Poemas que o Povo Pede; Rir Até Cair de Costas; Poema e Canções; e Antologia Ilustrada dos Cantadores, este último com F. Linhares. Otacílio Batista Patriota morreu a 05 de agosto de 2003, na cidade de João Pessoa, Paraíba.
Depois de ouvir Otacílio Batista cantar durante um festival de violeiros realizado no Rio de Janeiro, o poeta Manuel Bandeira fez os seguintes versos:
Violeiros do Nordeste
Anteontem, minha gente,
Fui juiz numa função
De violeiros do Nordeste
Cantando em competição,
Vi cantar Dimas Batista,
Otacílio, seu irmão,
Ouvi um tal de Ferreira,
Ouvi um tal de João.
Um a quem faltava um braço
Tocava cuma só mão;
Mas como ele mesmo disse,
Cantando com perfeição,
Para cantar afinado,
Para cantar com paixão,
A força não está no braço,
Ela está no coração.
Ou puxando uma sextilha,
Ou uma oitava em quadrão,
Quer a rima fosse em inha
Quer a rima fosse em ão,
Caíam rimas do céu,
Saltavam rimas do chão!
Tudo muito bem medido
No galope do Sertão.
A Eneida estava boba,
O Cavalcanti bobão,
O Lúcio, o Renato Almeida,
Enfim toda comissão.
Saí dali convencido
Que não sou poeta não;
Que poeta é quem inventa
Em boa improvisação
Como faz Dimas Batista
E Otacílio seu irmão;
Como faz qualquer violeiro,
Bom cantador do Sertão,
A todos os quais humilde
Mando “minha saudação.”
Poesia além dos "castelos"

O grande artista brasileiro Antônio Nóbrega disse a respeito dos irmãos Batista:
"Poetas ignorados pela crítica culta e pelas grandes editoras, mostram que há uma poesia além dos ‘castelos".
Apesar de Manuel Bandeira haver escrito o poema memorável acima, dizendo que ele mesmo, membro da Santíssima Trindade da poesia culta do Brasil do século, ao lado de Carlos Drummond de Andrade e de João Cabral de Melo Neto, não poderia ser considerado um poeta, se comparado à tríade de irmãos de repentistas Dimas, Otacílio e Lourival Batista, o que há de verdade é um o esquecimento da cultura popular pelos que produzem a cultura dita erudita no Brasil. Tonheta, o palhaço violinista (Antônio da Nóbrega)  tem toda razão quando diz que  há  que "há um fosso difícil de transpor entre os violeiros da aldeia e os saraus do castelo".

                                             Mulher Nova Bonita e carinhosa (vídeo acima)
(Otacílio Batista e Zé Ramalho)

Numa luta de gregos e troianos
Por Helena, a mulher de Menelau
Conta a história que um cavalo de pau
Terminava uma guerra de dez anos
Menelau, o maior dos espartanos
Venceu Paris, o grande sedutor
Humilhando a família de Heitor
Em defesa da honra caprichosa
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor.
Alexandre figura desumana,

Fundador da famosa Alexandria
Conquistava na Grécia e destruía
Quase toda a população tebana,
A beleza atrativa de Roxana
Dominava o maior conquistador;
E depois de vencê-la, o vencedor
Entregou-se à pagã mais que formosa!
Mulher nova bonita e carinhosa
Faz um homem gemer sem sentir dor.

A mulher tem na face dois brilhantes
Condutores fiéis do seu destino
Quem não ama o sorriso feminino
Desconhece a poesia de Cervantes
A bravura dos grandes navegantes
Enfrentando a procela em seu furor
Se não fosse a mulher mimosa flor
A história seria mentirosa
Mulher nova, bonita e carinhosa.
Faz o homem gemer sem sentir dor.

Virgulino Ferreira, o Lampião.
Bandoleiro das selvas nordestinas
Sem temer a perigos nem ruínas
Foi o rei do cangaço no Sertão
Mas um dia sentiu no coração
O feitiço atrativo do amor
A mulata da terra do condor
Dominava uma fera perigosa
Mulher nova, bonita e carinhosa.
Faz o homem gemer sem sentir dor.
Na velhice, o sujeito nada faz...

A não ser uma igreja que visita;
Mas, se acaso encontrar mulher bonita,
Ele troca Jesus por Satanás;
Pensa logo no tempo de rapaz,
Diz pra ela: "Me ame, por favor"
A reposta que vem : "é não Senhor
Sua idade passou, deixe de prosa".
Mulher nova, bonita e carinhosa
Faz o homem gemer sem sentir dor
fontes:http://portaldopajeu.com/index.php/poetas-do-pajeu/44-poetas/54-otacilio-batista-otacilio-batista-patriota.html
http://www.saojosedoegitocapitaldapoesia.hpg.ig.com.br/personagens.html












domingo, 31 de outubro de 2010

Hoje é dia de Drummond

31 de outubro, comemora-se a data do nascimento do itabirano ilustre, poeta, cronista, contista, tradutor. Quem nunca se emocionou, refletiu ou brincou  com  versos  de Drummond? "Tinha uma pedra no meio do caminho" , "E agora, José", "João amava Teresa que amava Raimundo que amava Lili"... Mas, e o tempo?

O tempo passa ? Não passa
Marc Chagall, The Poet with the Birds - 1911, Minneapolis Institute of Arts, Minnesota
O tempo passa ? Não passa 
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.

O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.

São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,
e o teu aniversário
é um nascer a toda hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade.

Carlos Drummond de Andrade


sábado, 16 de outubro de 2010

         A Rosa Meditativa - Salvador Dali         
                                               
                                               A Dança
Não te amo como se fosses a rosa de sal, topázio
Ou flechas de cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo assim diretamente sem problemas nem orgulho:
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
Senão assim deste modo que não sou nem és,
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Antes de amar-te, amor, nada era meu:
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se dependiam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado, decaído,
Tudo era inalianavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.
      Pablo Neruda
Poema do livro Aún (Ainda) – Tradução de Olga Savary – publicado pela editora José Olympio – 5ª ed. Rio de Janeiro, 1995




sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um poeta lusófono africano

Através do professor Ernane, de Caetanópolis,  fui apresentada à poesia de António Agostinho Neto. Comungo com o professor o mesmo gosto pela poesia em língua lusófona: portuguesa, brasileira, africana, linda!
Por isso os leitores se deparam por aqui com autores como Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e tantos outros poetas não brasileiros ainda virão enriquecer este meu espaço.
Neste post atenho-me à poesia forte de Agostinho Neto; forte como a personalidade do autor e como a sua trajetória.
Achei interessante apresentar a biografia  tal qual  a encontrei no Lusofonia Poética e, como ela é extensa, opto por escrever bem pouquinho por aqui e deixar um dos poemas, que é de uma beleza ímpar.

 Quitandeira

                                   Mulata Quitandeira - Antônio Ferrigno - óleo sobre tela

A quitanda.
Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.
- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!

A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.
A quitandeira
que vende fruta
vende-se.

- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!
Compra laranja doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.
Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.
Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.
E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.
Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.
Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.
Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.
Talvez vendendo-me
eu me possua.
- Compra laranjas!
(in Sagrada esperança)


António Agostinho Neto

                                             (Kaxicane 17 de Setembro de 1922, - Moscovo 1997)

Agostinho Neto nasceu na aldeia de Kaxicane, região de Icolo e Bengo, a cerca de 60 km de Luanda. O pai era pastor e professor da Igreja Metodista e, a sua mãe, era igualmente professora.
Após ter concluído o curso liceal em Luanda, trabalhou nos serviços de saúde e viria a tornar-se rapidamente uma figura proeminente do movimento cultural nacionalista que, durante os anos quarenta, conheceu uma fase de vigorosa expansão em Angola.
Decidido a formar-se em Medicina, embarca para Portugal em 1947 e matricula-se na Faculdade de Medicina de Coimbra, e posteriormente na de Lisboa. Dois anos depois da sua chegada a Portugal, foi-lhe concedida uma bolsa de estudos pelos Metodistas Americanos.
Envolve-se desde muito cedo em actividades políticas sendo preso em 1951, quando reunia assinaturas para a Conferência Mundial da Paz em Estocolmo. Após a sua libertação, retoma as actividades políticas e torna-se representante da Juventude das colónias portuguesas junto do Movimento da Juventude Portuguesa, o MUD juvenil. E foi no decurso de um comício de estudantes a que assistiam operários e camponeses que a PIDE o prendeu pela segunda vez, em Fevereiro de 1955,  só vindo a ser posto em liberdade em Junho de 1957.
Por altura da sua prisão em 1955, veio ao lume um opúsculo com poemas seus, que denunciavam as amargas condições de vida do Povo angolano.
A sua prisão desencadeou uma vaga de protestos em grande escala. Realizaram-se encontros; escreveram-se cartas e enviaram-se petições assinadas por intelectuais franceses de primeiro plano, como Jean-Paul Sart, André Mauriac, Aragon e Simone de Beauvoir, pelo poeta cubano Nicolás Gullén e pelo pintor mexicano Diogo Rivera, e em 1957, Agostinho Neto, foi eleito Prisioneiro Político do Ano pela Amnistia Internacional.
Em 1958, Agostinho Neto licenciou-se em Medicina e, casou com Maria Eugénia, no próprio dia em que concluiu o curso. Neste mesmo ano, foi um dos fundadores do clandestino Movimento Anticolonial (MAC), que reunia patriotas oriundos das diversas colónias portuguesas.
Em 30 de Dezembro de 1959. Neto voltou ao seu País, com a mulher, Maria Eugénia, e o filho de tenra idade, e passou a exercer a medicina entre os seus compatriotas. Em 8 de Junho de 1960, o director da PIDE veio pessoalmente prender Neto no seu Consultório em Luanda.
Uma manifestação pacífica realizada na aldeia natal de Neto em protesto contra a sua prisão foi recebida pelas balas da polícia. Trinta mortos e duzentos feridos foi o balanço do que passou a designar-se pelo Massacre de Icolo e Bengo. Receando as consequências que podiam advir da sua presença em Angola, mesmo encontrando-se preso, os colonialistas transferiram Neto para uma prisão de Lisboa e, mais tarde enviaram-no para Cabo Verde, para Santo Antão e, depois para Santiago, onde continuou a exercer a medicina sob constante vigilância política.
Foi, durante este período, eleito Presidente Honorário do MPLA.
Por mostrar a alguns amigos em Santiago (Cabo Verde) uma fotografia, em que um grupo de jovens soldados portugueses sorriam para a câmara, segurando um deles uma estaca em que foi espetada a cabeça de um angolano e inserta em diversos jornais (por exemplo, no Afrique Action, semanário que se publica em Tunes) Agostinho Neto foi preso na cidade da Praia em 17 de Outubro de 1961 e transferido depois para a prisão de Aljube em Lisboa.
Sob forte pressão, interna e externa, as autoridades fascistas viram-se obrigadas a libertar Neto em 1962, fixando-lhe residência em Portugal. Todavia, pouco tempo depois da saída da prisão, Agostinho Neto, em Julho de 1962, saiu clandestinamente de Portugal com a mulher e os filhos pequenos, chegando a Léopoldville (Kinshasa), onde o MPLA tinha ao tempo a sua sede exterior,
Em Dezembro desse ano, foi eleito presidente do MPLA durante a Conferência Nacional do Movimento.
Em 1970 foi-lhe atribuído o Prémio Lótus, pela Conferência dos Escritores Afro-Asiáticos
Com a "Revolução dos Cravos" em Portugal e a derrocada do regime fascista de Salazar, continuado por Marcelo Caetano, em 25 de Abril de 1974, o MPLA considerou reunidas as condições mínimas indispensáveis, quer a nível interno, quer a nível externo, para assinar um acordo de cessar-fogo com o Governo Português, o que veio a acontecer em Outubro do mesmo ano.
Agostinho Neto regressa a Luanda no dia 4 de Fevereiro de 1975, sendo alvo da mais grandiosa manifestação popular de que há memória em Angola
Agostinho Neto, que na África de expressão portuguesa é comparável à Léopold Senghor na África de expressão francesa, foi um esclarecido homem de cultura para quem as manifestações culturais tinham de ser, antes de mais, a expressão viva das aspirações dos oprimidos, armas para a denúncia de situações injustas, instrumento para a reconstrução da nova vida.
Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, foi eleito pelos seus pares o seu primeiro Presidente.
Bibliografia:
Quatro Poemas de Agostinho Neto, 1957, Póvoa do Varzim, e.a.;
Poemas, 1961, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império;
Sagrada Esperança, 1974, Lisboa, Sá da Costa (inclui os poemas dos dois primeiros livros);
A Renúncia Impossível, 1982, Luanda, INALD (edição póstuma).
Fonte:http://www.lusofoniapoetica.com/index.php/artigos/poesia-angola/agostinho-neto.html


terça-feira, 21 de setembro de 2010

Felicidade

                             "Não se acostume com o que não o faz feliz, 
                               revolte-se quando julgar necessário.
                              Alague seu coração de esperanças,
                              mas não deixe que ele se afogue nelas.
                              Se achar que precisa voltar, volte!
                              Se perceber que precisa seguir, siga!
                              Se estiver tudo errado, comece novamente.
                              Se estiver tudo certo, continue.
                              Se sentir saudades, mate-a.
                              Se perder um amor, não se perca!
                              Se o achar, segure-o! "
                                                           Fernando Pessoa
 
                             "Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
                              Apesar de todos os desafios,
                              Incompreensões e períodos de crise.
                              Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas
                              E se tornar um autor da própria história.
                              É atravessar desertos fora de si,
                              Mas ser capaz de encontrar um oásis
                              No recôndito da sua alma.

                              É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
                              Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
                              É saber falar de si mesmo.
                              É ter coragem para ouvir um “não”.
                              É ter segurança para receber uma crítica,
                              Mesmo que injusta.
                             
                              Pedras no caminho?
                              Guardo todas, um dia vou
                              Construir um castelo ..."
                                                 Fernando Pessoa

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O SER DIFERENTE

"Vocês riem de mim por eu ser diferente, e eu rio de vocês por serem todos iguais"
                                                         Bob Marley

"Lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem, lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize"
                                                         Boaventura de Souza Santos

                        17ª Semana da Pessoa com Deficiência

                                                 Sinal Verde para Inclusão
Entre os dias 18 e 28 de setembro, Belo Horizonte receberá mais uma edição da "Semana da Pessoa com Deficiência", evento realizado pela Prefeitura, por meio da Coordenadoria de Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência (CDPPD).
Em sua décima sétima edição, o evento, que conta com o apoio de vários parceiros,  quer mostrar a necessidade de acelerar o processo de inclusão de pessoas com deficiência, além de destacar as suas capacidades, potencialidades e habilidades, através de conquistas no âmbito político e social, convidando à ações e reflexões acerca do processo de inclusão.
A Semana integra o Calendário Oficial de Eventos do Município, e nestes 17 anos teve como objetivo dar visibilidade ao segmento na sociedade brasileira tradicionalmente tido como invisível ou excluído.
A Secretaria Municipal Adjunta de Direitos de Cidadania está empenhada na participação do Poder Público junto aos diversos segmentos populacionais e sociais, apoiando iniciativas individuais e de grupo das pessoas com deficiência que buscam romper limitações e desafios. A programação da 17ª Semana se inicia com a "III Mostra Mineira de Arte, Inclusão e Cidadania" e com o Seminário "Educação Inclusiva: Construíndo Possibilidades", e contará com feiras de artesanato e tecnologia assistiva, apresentações artísticas e esportivas, com todas as atividades abertas à população.
Mais informações e inscrições no site http://portalpbh.pbh.gov.br/pb
Fonte: Prefeitura de Belo Horizonte

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Ao lermos o post  acima,  por certo nos alegramos com essas  atitudes e empreendimentos louváveis e a cada dia, felizmente, mais constantes na sociedade, seja por iniciativa dos órgãos públicos ou do setor privado. É um excelente projeto, que ajuda a garantir direitos e a mostrar para a sociedade o valor imenso de uma parcela marginalizada, até mesmo, desconhecida nos seus afazeres e habilidades. É o resgate da cidadania, a valorização, nada de caridade, pois é de respeito que essas pessoas precisam.
Ao mesmo tempo, foi-me impossível não pensar no quão difícil é para  uma pessoa com algum tipo de deficiência ou necessidade especial viver na nossa sociedade. Apesar de alguns avanços, ainda há  muito que se fazer.
Porém,  algo mais  neste dia me fez discorrer  sobre a dificuldade de se aceitarem as diferenças...
Recebi hoje  um e-mail , de um tipo que tem aumentado muito na minha caixa.
Fico tentada a responder aos amigos que mos enviam que não aprecio o tipo de "informações" enviadas, porém acabo deixando para lá e deleto a mensagem, sem maiores complicações. Contento-me com o não rir e o não repassar, porém me angustio pela pessoa que me conhece e  não conhece, pois achou que eu "morreria de rir" daquilo. Pelo "cc" vejo a quantidade enorme de pessoas que receberam e provavelmente passarão adiante. 
Com o tempo aprendi a intuir sobre o conteúdo da mensagem pelo assunto, que o remetente antecipa de forma a torná-la irresistível, instigadora à curiosidade. Mas como disse, já "manjo" os casos e nem perco tempo abrindo esses tipos de e-mails.
E hoje, mais uma vez estava lá: "Enc: Malditas sejam as Casas Bahia que parcelam máquina digital em até 17 vezes sem juros!!!!"‏
E o conteúdo é o de sempre: inúmeras imagens de pessoas pobres, negras, gordas, fora dos padrões consumistas e globais de beleza, anões, homossexuais, fotografadas em cenas de alegria e pura descontração.  Que graça pode ter? Para mim a graça de ver pessoas alegres, saudáveis.  Mas, infelizmente, o objetivo dos repassantes desses conteúdos é rir das pessoas e levar o maior número de conhecidos ou mesmos desconhecidos a verem esse próximo/irmão/ser humano como uma figura tosca, ridícula.
Sei que há bastante gente dando bobeira por aí, a deixar fotos caírem na rede em poses e situações, mas não compreendo esse preconceito travestido de graça e piada de pessoas que ridicularizam a imagem alheia num humor alienado - se é que se pode chamar isso de humor. Será que se pode chamar de humor esse trato seletivo, que só ridiculariza e faz chacota de determinadas classes? 
Qualquer pessoa com bom senso sabe qual é o limite, onde está a linha que divide o que é brincadeira, pura graça do que é maldade e humilhação. Nem sempre quem faz o "humor" se coloca no lugar no outro e,  às vezes,  piadas ou outros feitos que soam como simples brincadeiras acabam de certa forma moldando mentalidades,  favorecendo  a cada dia mais uma cultura de preconceito e violência, que se alimenta muito desse humor.
Claro que há piadas e outros trabalhos como as charges, cujo teor nos leva a reflexões interessantes sobre determinada situação. Há, por exemplo,  piadas e charges que têm como alvo os políticos e/ou a política, em que se pode notar,  em boa parte delas, conteúdo crítico que nos  leva a pensar.
Mas quando se referem a classes sociais, aparência física, opções sexuais,  características regionais, mais que graça, o que fica patente é o preconceito. Acho que não sou apenas eu que estou  farta de piadas sobre a loura burra, o baiano preguiçoso, o gay, o corno, a puta, o português...
Por favor, não pensem que sou mal-humorada, pelo contrário, costumo rir bastante, mas o sorriso amarela no meu rosto diante de algumas coisas pseudoengraçadas que tentam me mostrar.
 Legal seria  tentar compreender as diferenças do próximo  e aceitá-las sem querer mudá-las com críticas preconceituosas ou fazer delas palanque para humor barato. Rir com é melhor do que rir de alguém.
*A ilustração que introduz  a postagem é da minha colaboradora e filha de 08 aninhos, Ana Beatriz.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Duas dúzias de coisinhas à-toa que deixam a gente feliz

Um poema, que na sua leveza, consegue mostrar para nós, "gente grande", que a lista de “coisinhas” anunciada pelo título, na verdade fala de coisas importantes para a felicidade do poeta e de muitas outras pessoas. E tanto as banais quanto as essenciais  preenchem nossa vida.

Duas dúzias de coisinhas à-toa que deixam a gente feliz
                                                                     Otávio Roth

Passarinho na janela, pijama de flanela, brigadeiro na panela.
Gato andando no telhado, cheirinho de mato molhado, disco antigo sem chiado.
Pão quentinho de manhã, dropes de hortelã, o grito do Tarzan.
Tirar a sorte no osso, jogar pedrinha no poço, um cachecol no pescoço.
Papagaio que conversa, pisar em tapete persa, eu te amo e vice-versa.
Vaga-lume aceso na mão, dias quentes de verão, descer pelo corrimão.
Almoço de domingo, revoada de flamingo, herói que fuma cachimbo.
Anãozinho de jardim, lacinho de cetim, terminar o livro assim.

* Vamos brincar um pouquinho? Comentem, mas também contem em um  verso, no estilo do poema acima, três das coisinhas que deixam vocês felizes. Quando tivermos uma boa lista, posto aqui no blog.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

PARDALZINHO

(Manuel Bandeira)

O pardalzinho nasceu
Livre. Quebraram-lhe a asa,
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão:
A casa era uma prisão,
O pardalzinho morreu.
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos
Foi o primeiro poema pelo qual me apaixonei. Eu tinha 8 anos...
A professora o passou no quadro e a cada verso que lia na lousa e copiava no meu caderno, invadia-me uma emoção que ainda não havia experimentado. A história daquele passarinho comoveu meu coraçãozinho de criança e minha mente desenhava as imagens da menina a tentar alimentar um bichinho, que a falta de liberdade fez morrer de tristeza.
Mas como era lindo o céu dos passarinhos que minha imaginação criava! Esse era o meu consolo.
E durante toda a minha vida essa pequena e linda obra do Bandeira esteve num cantinho da memória, não escondido, mas reservado para os momentos em que me faz falta relembrar aquela criança que fui.

Na fase escolar de 5ª a 8ª série, nenhum professor premiou-me com estudos das obras de Manuel Bandeira e só o meu “Pardalzinho” continuava a me fazer companhia.
Mas no ensino médio, para meu deleite, Bandeira com seus poemas estava lá. Conheci “Letra para uma valsa romântica”, “A estrela”, “Vou-me embora pra Pasárgada”, “O bicho”, “Os sapos”.
Somente então pude compreender a importância do poeta para a literatura brasileira, ao perceber que seus versos atravessaram todas as fases do Modernismo no Brasil, sendo o poema “Os sapos”considerado uma espécie de hino modernista, depois que foi declamado noTeatro Municipal de São Paulo, durante a Semana de Arte Moderna, no ano de 1922, quando se deu a explosão do Movimento Modernista Brasileiro. A bibliografia desse pernambucano conta com obras significativas também em prosa e , Conforme esclarece o melhor crítico da obra de Bandeira, Davi Arrigucci Jr.: "A poesia de Bandeira tem início no momento em que sua vida, mal saída da adolescência, se quebra pela manifestação da tuberculose, doença então fatal. O rapaz que só fazia versos por divertimento ou brincadeira, de repente, diante do ócio obrigatório, do sentimento de vazio e tédio, começa a fazê-los por necessidade, por fatalidade, em resposta à circunstância terrível e inevitável".

São características da obra de Bandeira: emprego do verso livre, mas não com exclusividade. Mesmo em suas últimas obras Bandeira recorre a formas fixas, uma demonstração a mais de sua liberdade de expressão, aproveitamento da fala coloquial, poesia simples, direta, aproveitamento de fatos do cotidiano, sentimento de humildade diante dos fatos, humor e visão de amor se aproximando ao erotismo, o amor físico.

Na solidão das noites úmidas

Como tenho pensado em ti na solidão das noites úmidas,
De névoa úmida,
Na areia úmida!
Eu te sabia assim também, assim olhando a mesma cousa
No ermo da noite que repousa.
E era como se a vida,
Mansa, pousasse as mãos sobre a minha ferida...

Mas, ah! como eu sentia
A falta de teu ser de volúpia e tristeza!
O mar... Onde se via o movimento da água,
Era como se a água estremecesse em mil sorrisos.
Como uma carne de mulher sob a carícia.
O luar era um afago tão suave,
- Tão imaterial -
E ao mesmo tempo tão voluptuoso e tão grave!
O luar era a minha inefável carícia:
A água era teu corpo a estremecer-se com delícia.

Ah! em música, pôr o que eu então sentia!
Unir no espasmo da harmonia
Esses dois ritmos contrastantes:
O frêmito tão perdidamente alegre de amor sob a carícia
E essa grave volúpia da luz branca.

Oh! viver contigo!
Viver contigo todos os instantes...
Harmoniosa e pura,
Sem lastimar a fuga irreparável dos anos,

Dos anos lentos e monótonos que passam,
Esperando sempre que maior ventura
Viesse um dia no beijo infinito da mesma morte...

Manuel Bandeira

(1886-1968)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

De velas e lamparinas


Hoje estou meio nostálgica. Como de costume, quando não estou na escola, após o café leio alguns blogs. E quanto "bato os olhos" no post da Roseana Murray, esta me embala numa viagem ao passado, quando conta de uma casa simples, sem energia elétrica, com conversas à luz de velas e muitas recordações.  À medida que leio o pequeno texto da Roseana, posso jurar que até sinto o cheirinho de querosene, combustível das lamparinas que iluminavam a casa da minha infância. Imediatamente me vejo criança, cabelo muito assanhado, a casa simples, pequenina e cheia de gente, repleta de calor humano de tios, tias, avós, primos.
Incrível...
Agora faço parte de uma parcela da população que usufrui de todos os benefícios da modernidade, mas conheci o outro lado. Não que queira voltar no tempo, porém são recordações que fazem bem à minha alma  e me permitem confrontar passado e presente.
Recordo das pessoas, dos bichos no quintal, do abacateiro, do pé de laranjinha capeta, do limoeiro, da gangorra de pneu de bicicleta. Como esquecer o cantinho de horta com plantas medicinais e a losna, que a minha mãe nos fazia ingerir para dor no estômago, combater vermes e abrir o apetite?  E o pé de assa-peixe? Esse, além de ser usado sabiamente como remédio, pela facilidade  com que são retirados seus galhos, serviu muitas e muitas vezes para as varadas que levei da minha mãe.
Muro inexistia, mas uma cerca de arame juncada com ora-pro-nobis e cansanção. Além de formarem uma cerca viva impossível de transpor, ambas são plantas comestíveis, então, meu pai soube unir o útil à segurança ao agradável ao estômago.
Até o que era árduo se transformava em diversão. Nem preciso forçar muito a memória para me ver em lugares a uma ou duas horas da nossa casa,  quando saíamos, um bando de crianças mais alguns  adultos para buscar lenha. Eu ia sempre muito contente, desde que não houvesse boi bravo no terreno. Era uma das que  acreditavam piamente que boi não gosta de vermelho, então nada de ir com roupa nessa cor. Depois de recolhida a lenha, amarrado o feixe com as cordas, enquanto nós, crianças, aguardávamos as mulheres mais velhas terminarem seus arranjos, não havia árvore ou pedreira impossível de ser escalada, grotão que não pudesse ser explorado. Nos ninhos a gente não mexia, pois a vó dava bronca.
Eu conhecia quase todas as árvores,  flores e também os frutos do cerrado: o bacupari, a goiaba, o pequi, o jatobá. Voltávamos com o feixe de lenha na cabeça e uma sacolinha pendurada no ombro com algumas frutas. Divertíamo-nos com o quase engasgar com o pó do jatobá, que, além de tudo, grudava nos dentes, formando uma pasta nada bonita de se ver.
E ao chegar a casa, a tarefa era  buscar água, visto não a termos encanada naquele tempo. Uma torneira pública  foi cenário de amizades, lugar onde trocávamos informações, fofocávamos e brigávamos também, a rolar nas poças, cheios de lama. No quarteirão de nossas casas, as brincadeiras de roda nos fins de tarde alimentaram namoros e deixaram saudades.
Ai, que tempo bom! Não me lembro de ter sofrido. Sobraram algumas cicatrizes no corpo, dos tombos e arranhões, mas na alma, nenhuma.
Fora o medo de assombração, que me fazia dormir com a cabeça totalmente coberta, com a  lamparina acesa e fazer xixi na cama, o resto era um mundo de inocência e alegria.
 Cida dos Santos                                                    Ilustrações:  Ana Beatriz